Cultura Sena - Moçambique



CULTURA SENA REGIÃO DE MANICA E SOFALA MOÇAMBIQUE

CAPÍTULO - I ------------------------------------------- INTRODUÇÃO

                                                CAPÍTULO - II ------------------------- À DESCOBERTA DA
CULTURA SENA
                                                                CONCLUSÃO
BIBLIOGRAFIA


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Capítulo - I

Ao falarmos de um povo é necessário retorcermos na sua história para situarmos a razão da sua existência, características sociais, culturais e a sua contemporaneidade.
O povo e grupo étnico que vou reportar é da cultura SENA (CISENA, CHISENA), que habita a região centro de Manica e Sofala em Moçambique.
Começo por situar e localizar geográficamente, e antropologicamente Moçambique, país localizado na África Austral, situado na costa do Oceano Índico, com cerca de 20 milhões de habitantes (2004). Foi uma colónia portuguesa, que se tornou independente em 25 de Junho de 1975.
(Bandeira de Moçambique)
A história de Moçambique encontra-se documentada pelo menos a partir do século X, quando um estudioso viajante árabe, Al-Masudi descreveu uma importante actividade comercial entre as nações da região do Golfo Pérsico e os "Zanj" (os negros) da "Bilad as Sofala", que incluía grande parte da costa norte e centro do actual Moçambique.
No entanto, vários achados arqueológicos permitem caracterizar a "pré-história" de Moçambique por muitos séculos antes.

Segundo registos, os primeiros habitantes foram provavelmente os Khoisan, que eram caçadores-recolectores.
Há cerca de 10.000 anos a costa de Moçambique já tinha o perfil aproximado do que apresenta hoje em dia: uma costa baixa, cortada por planícies de aluvião e parcialmente separada do Oceano Índico por um cordão de dunas. Esta configuração confere à região uma grande fertilidade, ostentando ainda hoje grandes extensões de savana com animais. Havia portanto condições para a fixação de povos caçadores-recolectores e até de agricultores.
 Provavelmente o evento mais importante dessa pré-história terá sido a fixação nesta região dos povos Bantu que, não só eram agricultores, mas introduziram aqui a metalurgia do ferro, entre os séculos I a IV.
Segundo registos, os povos primitivos de Moçambique foram os Bosquímanes(1). Entre os anos 200 a 300 DC, ocorreram as grandes migrações de povos Bantu, oriundos da região dos Grandes Lagos a Norte, que empurraram os povos locais para regiões mais pobres ao Sul.
 Nos finais do Sec. VI, surgiram nas zonas costeiras, os primeiros entrepostos comerciais, patrocinados pelos Swahili-árabes que procuravam essencialmente a troca de artigos vários pelo ouro, ferro e cobre vindos do interior.
1-Designação de família do grupo étnico.
Nos séculos I a IV, a região começou a ser invadida pelos Bantu (ver expansão bantu), que eram agricultores e já conheciam a metalurgia do ferro. A base da economia dos Bantu era a agricultura, principalmente de cereais locais, como a mapira (sorgo) e a mexoeira; a olaria, tecelagem e metalurgia encontravam-se também desenvolvidas, mas naquela época a manufactura destinava-se a suprir as necessidades familiares e o comércio era efectuado por troca directa. Por essa razão, a estrutura social era bastante simples baseada na "família alargada" (ou linhagem) à qual era reconhecido um chefe.
Os Monomotapa ou Mwenemutapas(2) são um povo de mineiros e trabalhadores de metais dum lado e de agricultores do outro, é natural que estas divisões de trabalho tenham criado diferenças sociais.
Enquanto que os artesãos (pessoas com arte) e mineiros, faziam parte da estrutura social na vida do Império, os agricultores mantinham na sua vida social as tradições tribais.

2-Monomotapa ou Mwenemutapas, quer dizer o Senhor das Minas e este nome ficou como título do próprio rei. Monomotapa não era o nome de um certo rei mas sim um título de todos os reis que ocuparam o trono.
Para além desta ser uma região fértil e não estar afectada pela mosca tsé-tsé, permitindo a criação de gado, o que contribuiu para a estabilidade e crescimento das populações, as minas de ouro estavam principalmente localizadas no interior. Por essa razão, o domínio das rotas comerciais que constituíam o Zambéze, por um lado, e de Manica e Sofala do outro lado na parte de Moçambique.
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CPITULO - II
É nesta região do centro de Moçambique a que nos reportamos e vamos á descoberta da cultura Sena.
Foi o ouro que determinou a fixação na costa do Oceano Índico, primeiro dos mercadores e colonos árabes oriundos da região do Golfo Pérsico, que era naquele tempo um importante centro comercial. Estes povos fundaram entrepostos na costa africana e muitos geógrafos daquela época referiram-se a um activo comércio com as "terras de Sofala", incluindo a troca de tecidos da Índia por ferro, ouro e outros metais.
De facto, o ferro era tão importante que se pensa que as "aspas" de ferro em forma de X, com cerca de 30 cm de comprimento, que formam abundantes achados arqueológicos nesta região, eram utilizadas como moeda. Mais tarde, aparentemente esta "moeda" foi substituída por outra; tubos de penas de aves cheias de ouro em pó – os meticais cujo nome deu origem à actual moeda de Moçambique.
Os mercadores portugueses, apoiados por exércitos privados, foram-se infiltrando no império dos Mwenemutapas, umas vezes firmando acordos, noutras forçando-os contribuiu para o declínio do Império.
Apesar da sociedade moçambicana se ter tornado muito mais complexa, muitas das regras tradicionais do seu culto e suas influências e modos de organização ainda se encontram baseadas na "linhagem".
Manica e Sofala, encontra-se no Centro de Moçambique, sendo um importante ponto de confluência nas ligações entre o Sul, o Norte e o Oeste, estas últimas através do corredor da Beira, uma via importante e muito antiga, para penetração no interior e países vizinhos.
É limitada a Norte pelas Províncias de Téte e Zambézia, a Sul por Inhambane e Gaza, a Oeste por Manica e o Zimbabwé a Leste por Sofala e pelo Oceano Índico.
O principal centro urbano é a cidade da Beira, erguida um pouco a norte da antiga cidade de Sofala, sobre terrenos anteriormente pantanosos junto a uma baía onde se localiza um dos principais portos do País e de África.
A Província de Manica encontra-se numa das zonas mais elevadas de Moçambique, sendo nela que nascem muitos dos rios que descem para Leste em direcção ao Índico.
As etnias mais representativas são os Shona, Sena e Ndau.
A língua escrita e falada de um povo é o seu mais importante atributo cultural. Língua com aproximadamente 1.086.040 de falantes em Moçambique (censo 1980).
SENA (CISENA, CHISENA) – Etnia (Ma-Sena).
Sena é a língua predominante em Tete e Noroeste.
Nesta região, a base da alimentação é a mapira, milho, meixoeira-cereais de alto poder nutritivo. A carne e o peixe, figuram em quase todas as refeições, por ser propícia na região, rica em animais selvagens e lagoas onde abundava principalmente o peixe-gato “Somba”, de características pré-históricas.
(peixe gato)
Algumas das poucas imagens que consegui recolher, e que reflectem a plasticidade e cultura desta etnia são trabalhos de artistas - artesãos natos, fazem parte peças feitas de madeira, peles e utensílios que aterra dá.
Por certo, esta cultura teve a influência de todos os povos, que por aqui passaram. As imagens representativas nos motivos artístico que caracterizam o espaço onde estavam confinados nas suas actividades diárias do quotidiano social, passando pela caça, pesca e actividades agrícolas.
É de realçar o painel em M’Gomo queimado, com figuras representativas
da vida da tribo Sena, em baixo e alto-relevo feito a canivete (figura -1).
 Figura -1
A técnica e processo de madeira de M´Gomo queimada trabalhada e raspada a canivete com figuras em baixo e alto-relevo é uma das características na sua arte (figura – 2).
 Figura -2

Outras das características são os painéis em peles de gazela com motivos desenhados pelo processo de pelo depilado, também caracterizado o quotidiano da tribo.
As panelas de barro, ainda é feito e utilizado nas áreas rurais das regiões centro e norte os utensílios são uma referência assim como a execução de cestos ou alcofas em sisal, fibra de colmo, folha de palmeira ou de coqueiro.
Espírito artístico e criativo do povo moçambicano, manifesta-se em várias áreas como na música, artesanato, escultura, pintura e no conto oral e escrito.
A marimba é um instrumento popular em toda a região central construído com a combinação de pranchas transversais de umbila e cabeças de abóbora que dá origem ao som ressonante do instrumento.

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CONCLUSÃO
Este estudo é uma reflexão analítica e temporal do Moçambique de hoje, no contexto dos ritos e vivências da etnia Ma-Sena.
Nos aspectos socioculturais pelos dados referenciados posso aperceber-me que eles preocupam-se com o desaparecimento de suas tradições culturais, pois isso implicaria a desarmonia da vida social e na morte do grupo.
É de denotar que os usos e costumes contemporâneos destas culturas, já se misturam com outras etnias.
Este trabalho, não está terminado é apenas o início de um longo caminho que á para percorrer na recolha de mais informações, que não consegui dispor directamente, nem por investigação de registos e por sua vez o cruzamento e recolha de mais dados fiáveis.
Encenação Aldeia Nativa
Foi um processo longo na recolha e no cruzamento de dados, porque quando se entra em África, temos a tendência de nos perdermos, ao deixarmo-
-nos absorver por toda a magia e encanto desse continente e dos seus Povos.
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autor | Paulo Jorge dos Santos Duarte
Janeiro
2010
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